o vazio que nos faz falta

Coletiva

19/09/2019

A galeria Casa da Imagem inaugurou, no dia 19 de setembro, a exposição “o vazio que nos faz falta”.
Esta é uma exposição diferente. São tempos difíceis. É possível que algum leitor, mal tenha aportado no ponto que encerra a primeira frase e de pronto reclame: “Por que diferente? Pelo que me consta só há telas e esculturas!”. É vero. Como em tantas, as protagonistas que aqui se apresentam são itens relativos à arte e que, como em outras mostras, prometem excelentes performances. São essas. Todavia, nesse evento, se exige delas um ressalto a mais, e notadamente diverso de um comportamento rotineiro. Se é verdade que, em modo mais ou menos frequente, nas exposições as obras ganham uma disposição que lhes impõem uma convivência, não é incorreto afirmar que esse conviver é bastante restrito, visto que igualmente se objetiva, por intermédio da montagem, realçar uma máxima potência para cada um dos itens expositivos, com vistas a impactar o público. Para tal, toma-se o cuidado que uma suficiente lonjura se interponha entre as presenças, de modo que uma não cause ruído à outra. Assim, os trabalhos podem até entabular alguma proximidade, entretanto essa é mediada por distâncias extremas. Comportam-se como moradores de um condomínio: são vizinhos, mas, a vida em comum que desfrutam repousa em base de laços marcadamente flácidos.
Em “o vazio que nos faz falta”, a relação obra – espectador apronta outra expectativa. O que é habitual toma âmbito secundário e ocorre como suplementar. Pelo menos é assim que se almeja. Há outro querer pautando a arrumação das obras: ao primeiro plano estão alçados os relacionamentos – os mais variados – que trabalhos promovem entre si. Embora as qualidades não sejam negligenciadas, não é em direção propriamente sobre essas que o foco recai, mas, sobre como essas qualidades tabulam convivências. Em vista disso, há sempre um outro se achegando e impedindo que as determinações tomem foro particular desse ou daquele, e acabam sendo vistas como compartilhadas.
Para participarem desse contexto foram selecionados itens de muita qualidade, contudo também se quis que os integrantes pertencessem a extratos diversos: há obras de mais de vinte artistas, de consagrados e de novos talentos, de jovens e daqueles que já nos deixaram, obras abstratas e figurativas, multicoloridas e monocromáticas. Buscamos um cadinho que reunisse diferenças, para em seguida traçar um relacionamento horizontal, afetivo e associativo.
E, se este outro modo de relacionamento é possível é porque novas métricas de distâncias e proximidades estão sendo perseguidas: a distância entre elas foi encurtada para que outros vazios possam agir. Em sua economia interna, a arte comporta um modo de ser capaz de conjugar disjunções. Age como opostos que se abraçam. Cada um desses contrários está envolto no âmbito de uma incompletude que nunca será completada, permanecerá assim sempre; no entanto, escora-se no outro, escora-se na corporeidade e no vazio da incompletude do outro: acaso o disponível se declarasse como completo não haveria a possibilidade da solda. É este vazio interno que a exposição agita ao violar distâncias, aproximando um item artístico do outro. Aqui, não se pretende promover colagens, mas, perseguir formas de convivência.
Vivemos tempos difíceis, a linguagem – ou as linguagens –, a quem cabia organizar a distância e promover a proximidade, dão provas de sua fragilidade, de seu esgotamento, consequentemente a experiência de vida coletiva acumula mal-estar. Na atualidade o que mais se reclama é a falta de expectativa ao diálogo e da atmosfera de ódio que engolfa todo o redor. Ninguém mais se encontra a salvo. E, ninguém é inocente. A exposição “o vazio que nos faz falta” debruça-se sobre esta questão. O diagnóstico traçado é que na contemporaneidade as contrariedades se afogaram em certezas e os vazios que cada qual dispõe e que permitem trazer o outro para perto estão ocupados, lotados por uma auto-suficiencia, mesmo que essa se mostre obtusa e falha. E, nada que se diga consegue demover posições.
Assim, senhoras e senhores, todos são bem-vindos à exposição, contudo não nos queiram mal se as obras não se comportarem como de costume, mostrando-se mais preocupadas com os parceiros que estão ao seu lado do que propriamente com o público que veio até aqui para vê-las. Como inicialmente se disse, esta é uma exposição diferente, e quem sabe, se aceitarmos essa possibilidade, talvez possamos encontrar meios de mais outra vez reinventar o âmbito de nossas sociabilidades.

ARTISTAS

Antônio Lizárraga nasceu em Buenos Aires, em 1924. Mudou-se para o Brasil em 1959 e trabalhou como ilustrador, escultor, artista gráfico, designer e pintor.

Bruno Marcelino nasceu em Campo Mourão-PR, 1989. É graduado no curso de Bacharel em Artes Visuais pela UFPR, (2013). Vive e trabalha em Curitiba.

Carina Weidle nasceu em Novo Hamburgo – RS, em 1966. É professora desde 1996 e atualmente coordenadora do Curso de Escultura da Escola de Música e Belas Artes do Paraná.

Cassio Michalany nasceu em São Paulo, 1949. É pintor, desenhista, arquiteto e professor.

Célia Euvaldo nasceu em São Paulo, em 1955. A artista tem obras na Galeria Raquel Aranud (SP), Anita Schwartz Galeria de Arte(RJ) e Lemos de Sá Galeria de Arte (BH).

Cildo Meireles nasceu no Rio de Janeiro, em 1948. É reconhecido como um dos mais importantes artistas contemporâneos do Brasil.

Cristina Canale nasceu no Rio de Janeiro, em 1961. Formada em desenho e pintura pela Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Participa de exposições como Rastros (MAM/RJ) e Spiegel und Erinnerung, na Alemanha, onde reside atualmente.

David Almeida é brasiliense radicado em São Paulo,́ formado em Artes Plásticas pela Universidade de Brasília.

Eduardo Climachauska nasceu em São Paulo, em 1958. Formado pela Escola de Comunicações e Artes, na USP.

Eduardo Sued nasceu no Rio de Janeirio, em 1925. É pintor, gravador, ilustrador, desenhista, vitralista e professor. Graduado na Escola Nacional de Engenharia do Rio de Janeiro, em 1948.

Fábio Miguez nasceu em São Paulo, em 1962. Estudou arquitetura na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo na USP. Entre 1983 e 1985, junto com Paulo Monteiro, Rodrigo de Andradade, Carlito Carvalhosa e Nuno Ramos, integra o ateliê Casa 7.

Gabriele Gomes nasceu em Curitiba. Estudou na Faculdade de Música e Belas Artes do Paraná e no Instituto per L'Arte e il Restauro, em Florença. Vive e trabalha no Rio de Janeiro.

Jorge Guinle nasceu em Nova York, 1947. Trabalhou como pintor, desenhista e gravador. É um importante membro da Geração 80.

José Damasceno nasceu no Rio de Janeiro, em 1968. Estudou arquitetura na Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro. Participou na 25ª Bienal Internacional de São Paulo, em 2002 e da 51ª Bienal de Veneza, em 2005.

José Spaniol nasceu em São Luiz Gonzaga (RS), em 1960. Entre 1978 e 1983, cursou artes plásticas na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), em São Paulo, onde vive e trabalha atualmente. É pintor, desenhista, gravador, escultor e professor.

Lilian Gassen nasceu em Cascavel, Paraná em 1978. Licenciada em Desenho pela UFPR em 2000, e em Artes Plásticas em 2001. É Mestre em História também pela UFPR. Integrou o grupo Pipoca Rosa, participando com o mesmo de várias coletivas como no MAC-PR (2000 e 2004).

Loio Pérsio nasceu em Tapiratiba, São Paulo. Viveu e trabalhou em Belo Horizonte, Curtiba, Rio de Janeiro, Espirito Santo, Alemanha e Paris.

Nuno Ramos nasceu em São Paulo, em 1960. É artista plástico, escritor e músico. Formado em Filosofia na USP, faz parte da Casa 7. Participou de diversas exposições, incluindo a 18ª Bienal Internacional de São Paulo. Recebeu o prêmio Mário Pedrosa, Barnett and Annalee Newman Foundation. Para compor suas obras, o artista emprega diferentes suportes e materiais. Trabalha com gravura, pintura, fotografia, instalção, poesia e vídeo.

Paulo Monteiro nasceu em São Paulo, em 1961. Estudou na Faculdade de Belas Artes de São Paulo na década de 80. É escultor, pintor, desenhista, gravador e ilustrador. Foi criador e integrante da Casa 7. Expôs seus trabalhos no Centro Universitário Maria Antônia, na Pinacoteca de São Paulo, na Funarte do Rio de Janeiro, no SESC-SP. Também participou da 5ª Bienal de Cuenca, 2ª Bienal de Cuba e da 18ª e 22ª Bienal Internacional de São Paulo. Atualmente vive e trabalha em São Paulo.

Paulo Pasta nasceu em Ariranha, São Paulo, em 1959. É pintor, desenhista, ilustrador e professor. Graduado e mestre em artes plásticas na ECA-USP, atuou como arte-educador na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Realizou diversos exposições e recebeu diversos prêmios. Em suas obras abstratas, explora variações tonais, utilizando-se de uma gama cromática reduzida.

Sérgio Romagnolo nasceu em São Paulo em 1957. Vive e trabalha no Rio de Janeiro, RJ. É escultor, pintor, desenhista, artista intermídia e professor.

Sérgio Sister Sérgio Sister nasceu em 1948, em São Paulo, onde reside e trabalha. Suas obras fazem parte de acervos como os do Museu de Arte Moderna de São Paulo; Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro; Pinacoteca do Estado de São Paulo; Centro Cultural São Paulo; e Instituto Figueiredo Ferraz, em Ribeirão Preto, todos no Brasil.

Thomaz Rosa é Bacharel em Artes Visuais pela UNESP em São Paulo, Thomaz Rosa frequentou residência na Faculdade de Belas Artes do Porto, Portugal (2012-2013).

Yozo Hamaguchi nasceu em Wakayama, Japão, em 1909. Estudou na Universidade de Artes de Tóquio e na Academie Grande Chaumière, na França. Ganhou em 1957 o prêmio de Gravura Estrangeira, na 4ª Bienal de São Paulo. Seu trabalho está nas coleções permanentes do Museu Metropolitano e do Museu de Arte Moderna (Nova York), na Bibliothèque Nationale (Paris), Instituto de Chicago, Fine Arts Museum de San Francisco e The National Gallery (Washington).

< voltar